Determinismo e Gramática Sintagmática (GS) – Parte 1

A gramática sintagmática constitui uma formalização do conjunto de modelos que permite determinar de forma precisa o alcance da sua capacidade descritiva.

Conceito de GS:

  • Uma gramática sintagmática é uma gramática formal de um tipo particular.
  • Uma gramática sintagmática captura o tipo de informação sobre a estrutura das frases que a análise sintática em constituintes imediatos (CI) reflete.


Dada uma frase, a análise em CI visa mostrar de que modo os elementos que a constituem se agrupam entre si para constituírem unidades (constituintes) que, por seu turno, se vão associar a outras unidades para com elas formarem novos constituintes mais elevados, e assim sucessivamente até se alcançar o constituinte máximo que é a frase. A estruturação hierárquica informa o modo como os elementos de uma frase se agrupam em constituintes. Um dos dispositivos que permite visualizar a organização da frase em vários níveis e a ligação e dependência entre os vários níveis é a representação num diagrama de árvore.

Um conjunto de constituintes, ainda que diferenciados pela sua estrutura interna, pode classificar-se numa mesma classe ou categoria desde que os diferentes membros desse conjunto sejam mutuamente substituíveis numa determinada posição da frase, sem que esta deixe de ser gramatical, isto é, desde que possam ocorrer num mesmo contexto.

A esta representação da estrutura de uma frase sob a forma de uma árvore etiquetada com símbolos damos o nome de Indicador Sintagmático (IS). Uma árvore é uma estrutura topológica de linhas e nós que obedecem entre outras à seguinte condição fundamental: da terminação de cada ramo até o ponto de origem da árvore só é possível seguir um trajeto.  Os pontos da ramificação são chamados de nós. As linhas que unem os nós são chamadas de ramos.

Árvore sintagmática. F= frase; SN= Sintagma Nominal; SV= Sintagma Verbal; V= Verbo; Q= Quantificador; DET= Determinante; N= nome

Tomemos a frase:

  • O pistoleiro visou a rapariga com uma arma

Há uma ambigüidade, portanto a frase pode ser interpretada de duas maneiras:

  • (a) O pistoleiro visou com uma arma a rapariga
  • (b) O pistoleiro visou a rapariga que tinha uma arma

Para cada nova frase, precisamos ter um IS com a devida interpretação.

Os pontos da ramificação são chamados de nós. As linhas que unem os nós são chamadas de ramos. SPREP= Sintagma Preposicional

Da terminação de cada ramo até o ponto de origem da árvore só é possível seguir um trajeto

Vemos que no caso a o sintagma verbal é constituído de verbo, sintagma nominal e sintagma preposicional. No caso b o sintagma verbal é constituído de verbo e sintagma nominal. Importante lembrar que há uma relação de dominância (exaustiva) somente entre termos ligados por ramos. Em a, temos um sintagma preposicional não dominado pelo sintagma nominal. Em b o sintagma preposicional está dominado pelo sintagma nominal. Ora, no primeiro caso, o sistema preposicional é de valor adverbial, enquanto no segundo, é de valor adnominal. Se não considerássemos que as frases se organizam em estruturas hierárquicas de constituintes, não teríamos como representar a lógica semântica utilizada pelo falante.

Formalização da Gramática

Para utilizarmos a lógica matemática na gramática, é preciso formalizar a gramática. Noam Chomsky foi quem desenvolveu essa idéia a partir de 1955. Uma linguagem é formal quando pode ser representada através de um sistema com sustentação matemática. Formada por:

  • Sintaxe (estrutura)
  • Semântica (significado)

Uma linguagem é um conjunto (finito ou infinito) de seqüências ou frases, cada uma delas finita em comprimento, construídas por concatenação sobre um conjunto finito de elementos (o vocabulário ou alfabeto).

Uma gramática serve para definir qual o subconjunto de sentenças que faz parte de uma determinada linguagem. Ela é um dispositivo formal para especificar uma linguagem potencialmente infinita de uma forma finita.

Tome V= vocabulário e L= linguagem

V= {a, b, c}

L= {a, b, aa, aba, ac, bac}

As frases de L são resultados de combinações entre si de elementos de V.

A todo processo finito capaz de enumerar o conjunto das frases de uma língua L, e apenas estas, damos o nome de gramática de L, G(L). A gramática é estruturada para gerar recursivamente as frases de uma língua. Uma das formas de enumeração de frases de uma língua L é a aplicação de uma função que estabeleça correspondência entre os pares de seqüências de L.

Como essas funções operariam?

De várias maneiras, de tal forma que haja uma lei de formação lógica. Exemplo:

L´= {ab, cdecde, f, ff, cde, abab} então f(L´) = {ab, abab, f, ff, cde, cdecde}

Nesse caso, a função f tem a característica de estabelecer uma correspondência entre os pares de frases, em que uma é a duplicação da outra.

Estas funções podem derivar um conjunto infinito de frases a partir de um número finito de pares de linguagem. Podemos, então, associar a cada função uma regra de equivalência. Exemplo:  V = {a, b, c} e linguagem L´´

  1. abc ~ a
  2. ab ~ ba

O símbolo (~) significa a equivalência; o termo da esquerda pode ser livremente substituído pelo termo da direita, uma vez que são equivalentes pela lei de formação.

Iniciando com a frase “a”, podemos derivar babcc, por exemplo. Observe:

Regra 1 (1) Regra 2 (2) Regra 1 (3)
a (início) abc bac babcc
………… ……………… …………. …………..

Poderíamos continuar aplicando as regras 1 e 2 para obter um número infinito de elementos para a linguagem L´´. O mecanismo recursivo foi aplicado.

Para a gramática gerativa, utilizamos regras orientadas do tipo X → Y, em vez das regras simétricas do tipo X ~Y.

Importante notar que, com esta nova notação, não há uma relação reflexiva e simétrica. A nova relação é: binária, irreflexiva e não simétrica. “→” pode ser lido como “reescreve para”. É uma instrução que reescreve a seqüência à esquerda da seta na seqüência à sua direita. Um sistema irrestrito de reescritura. Gramática do tipo 0, ou sistema de reescritura não restringido (SRNR).

Convém agora destacar os quatro tipos de Gramáticas, segundo a hierarquia de Chomsky:

  • Gramática do tipo 0 ou Irrestritas
  • Gramática do tipo 1 ou Sensível ao Contexto
  • Gramática do tipo 2 ou Livre de Contexto
  • Gramática do tipo 3 ou Regular

Tipo 3 está contido no tipo 2, contido no tipo 1, contido no tipo 0

OBS: As gramáticas do tipo 0 apresentam uma dupla limitação: por um lado, geram uma classe de linguagens demasiado larga, e neste sentido são demasiado poderosas; por outro lado não chegam a fornecer determinadas informações sobre a estrutura interna das frases que são relevantes para a sua interpretação por parte dos falantes, portanto demasiado fracas. É possível suprimir uma limitação das gramáticas do tipo 0, impondo algumas restrições sobre a forma de reescritura. O tipo de descrição que estas gramáticas associam às frases que geram é insuficiente para a compreensão por parte dos falantes. Há a necessidade de um novo tipo de regra: as regras transformacionais.

Na próxima parte, podemos aplicar o determinismo na gramática sintagmática, uma vez que o conceito de gramática está um pouco mais formalizado em bases matemáticas.

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8 comentários em “Determinismo e Gramática Sintagmática (GS) – Parte 1

  1. Esta parte da linguistica já é bem ligada a computação. Varios tipos de gramática.
    Acho que o topico ficou bem explanativo, claro. Pegar um livro de gramáticas formais e ir lendo não é nada fácil. O seu tópico eu entendi tudo.
    o determinismo mecanicista? :D

  2. Gostei muito da abordagem; é de uma clareza extrema.
    O estruturalismo não é uma matéria das preferidas entre os alunos de letras, e você, que faz é física, parece gostar muito mais que eles mesmos. Parabéns!

  3. Fizeram ate onde devia, a ter de passar por aqui para mais teriam feito a liguistica transbordar na mente do vosso leitor. Porem, das proxima vezes agradecia imenso que os vossos exemplos fosses extraidos de romances ou outros livros referentes a CPLP, pois dessa maneira os alunos nao veriam a linguistica como nao ligada ao seu quotidiano, julgo.

    • Olá,
      Julgando pela sua escrita, trata-se de um português, correto?
      Bem, a minha limitação quanto a usar livros referentes a CPLP é que não possuo tais livros e, como não faz parte do meu estudo do dia a dia, não possuo tempo para elaborar grandes artigos.
      grato.

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